Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa | Jornalista
DO CABARÉ DE TONHO DO MIRA AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
17/09/2026
 

Alexandre de Moraes e André Mendonça, estranhamente adversários políticos dentro de um tribunal, encontraram-se. os dois, debaixo da sombra malfazeja de Daniel Vorcaro

 

 

Em Aracaju, nos fins dos anos 50 ao começo dos anos 60, tornaram-se famosos dois cabarés, ou “casas da perdição”, como eram chamadas tais casas pelas pessoas mais recatadas. Um era o Shangay, ao qual raramente associava-se o nome de Tefinha, a proprietária; o outro, o Mira Mar, que, de fato, ficava “olhando” o estuário do Sergipe, adicionou o nome ao do seu proprietário, que ficou sendo Tonho do Mira. Ele era um homossexual mais do que assumido, que dizia ser filho de santo e ter dois orixás, e se fazia homem durante seis meses e “mulher” nos outros seis. No seu quarto, no próprio cabaré, passavam amantes masculinos, que ele dizia não saber “arrumar a cama”, e as amantes mulheres, que deixavam o quarto todo como um “brinco”. Desse tempo de zelo feminino foram gerados vários filhos, dos quais Tonho muito se orgulhava e os mandou estudar em colégios internos.

Tonho do Mira era alto, espadaúdo e temido por ser valente e bom capoeirista nos dois tempos da sua mutação sexual. Quando começou a era do petróleo em Sergipe, desde o período um tanto longo de prospecção até jorrar o óleo negro em Carmópolis, em 1962, havia muitos “gringos” na cidade, a maioria americanos, trabalhadores das empresas que prestavam serviços à PETROBRAS. Numa cidade pequena e sem maiores atrativos, eles eram frequentadores assíduos dos cabarés e, nas noites de sábado, quando o salão de dança se enchia, não eram raras as brigas envolvendo “gringos” e brasileiros. Um dos preferidos era o Mira Mar.

Nas ocasiões em que nem a Polícia chegava para acabar a bagunça, Tonho do Mira, ágil como um felino, saltava sobre uma mesa, sacava o seu Schmidt-Wesson calibre 38, acionava o gatilho e, feito silêncio, restabelecia a ordem na casa, gritando: “Isso aqui é um cabaré, mas tem dono”.

Sem fazer paralelos, mas cavucando lembranças no baú do tempo e da memória, depois de assistir na TV à cena chocante dos ministros do Supremo trocando insultos, em linguagem chula de arrieiros, poderia ter surgido a dúvida: teria faltado um Tonho do Mira naquele cabaré, ou, perdão, no nosso Supremo Tribunal Federal?

É óbvio, não faltou o empresário do lenocínio; o que faltou foi algo impensável nos nossos “supremos” juristas: a compostura, o respeito à Toga que vestem, uma noção mínima de civilidade.

O ex-ministro do Supremo Carlos Ayres de Britto, um paradigma que a Corte nunca deveria ter esquecido, é um primoroso frasista que coloca inteligência, humor e singularidades nas palavras que junta para produzir frases lapidares. Uma delas: “O poder não tem pudor, deve desnudar-se para tornar-se transparente.”

No caso dos contendores envolvidos na “suprema batalha”, o que houve foi um striptease que os deixou, quase todos, numa nudez impudica, onde a ausência pornográfica da compostura a quase todos igualou.

Quais as causas desse rebaixamento do altar da Justiça ao lamaçal da esbórnia?

Caso o ministro Alexandre Morais não houvesse caído na tentação do dinheiro fácil de um gangster, ele e o Tribunal continuariam sob o fogo do bolsonarismo mas, podendo resistir enquanto sua honra pessoal não fosse devastada.

Evidente, Morais não poderia deixar de ser investigado, mas aí entra em cena o ministro André Mendonça, que se transforma em cabo eleitoral de Fábio Bolsonaro, encontrando o momento exato para destruir aquele que fora o maior responsável pela prisão do chefe do clã. Haveria outro, ou outros nomes, arrolados em meio ao festival orgíaco patrocinado por André Vorcaro, o banqueiro que corroeu os alicerces da República. Fábio Bolsonaro era um deles, aliás, superando o próprio Alexandre de Morais no volume de dinheiro extraído do banqueiro pela influência dos seus cargos e do poder que acumulam impudicamente.

Por fim, descobre-se que o próprio André Mendonça, da mesma forma que Alexandre de Morais e Dias Toffoli, era um parceiro de fé do credo impuro do banqueiro, onde o dinheiro se torna a suprema potestade. Entrou também na mesma sedutora crença o ministro Nunes Marques. E mais o Procurador-Geral da República, seduzido por Londres e um uísque com astronômico preço. Assim, resta esperar que a placidez do caráter de uma mulher, a ministra Carmen Lúcia, que se caracteriza pela suavidade das suas falas e se destaca acima de todos pelo exemplo, possa, ao lado de Fachim, o presidente da Corte, tímido, parecendo espantado com o que acontece à sua volta, mas, mesmo assim, convencerem aos brasileiros que o Supremo é infinitamente maior do que qualquer um dos seus integrantes, sendo eterno, como eterna é a Nação e assim, demonstrando que é, a este ente inconsútil que se deve, em qualquer circunstância, manter íntegro, livre das ameaças de uma ala ululante do bolsonarismo nazi-fascista, da qual faz parte, desgraçadamente para o Brasil, um candidato a presidente da República, cuja meta almejada é atingir o último e principal dos seus alvos: a Democracia.

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