Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor, ambientalista, membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Além desse blog, é colunista do Portal F5 News.
“O DESAMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA”
05/02/2019
“O DESAMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA”

Gabriel Garcia Márquez, um colombiano Premio Nobel de Literatura, não deve ser um escritor que outro colombiano, o senhor Velez Rodriguez, por sinal nosso Ministro da Educação e Cultura, a ele conceda espaço para figurar na sua seletiva estante.

A xenofobia, aquela aversão a estrangeiros, imigrantes principalmente, que hoje alimenta o discurso de extrema direita de Donald Trump, e ganha espaço na Europa, felizmente, é um sentimento que ainda não contaminou o Brasil. Apesar de termos extensas fronteiras com nove países que nos cercam por todos os quadrantes, exceto o leste, onde nos encontramos com o Atlântico, os nossos vizinhos não nos despertam medos, muito menos ódios, e os que atravessaram o oceano e aqui vieram em numerosas levas, (japoneses, italianos, portugueses, alemães, poloneses.......) foram sempre recebidos com gestos largos de acolhimento.

Isso nos fez construir a imagem de um país  que, segundo Monteiro Lobato, conseguiu fazer um “melting–pot racial”, um caldeirão de povos. E nesse caldeirão acrescentamos um imigrante forçado: o negro, a quem se deve a maior parcela de presença na formação da nossa nacionalidade.

Mas, sem nenhum contágio xenófobo, temos de admitir que há alguns imigrantes que não nos fariam falta nenhuma, se  preferissem,  na sua diáspora individual,  encontrar um outro país como destino. Um deles, certamente, é o senhor Velez Rodriguez.

A um dos seus best-sellers Garcia Márquez deu o nome de O Amor Nos Tempos do Cólera.

É uma história de amor que se frustra, e que as ausências não desfazem, e ressurge na velhice, e se refaz no idílio rejuvenescedor de um encontro a bordo de um barco navegando num grande rio. O cenário para o realismo fantástico de Márquez, é, indisfarçavelmente a selva, a natureza exuberante da Colômbia, onde perpassam os dramas sociais, os conflitos, as tragédias da pobreza, das esperanças desfeitas pelo mandonismo oligárquico de uma elite antiga,  e saqueadora.

Uma síntese da história latino-americana?

O nosso ministro da educação e cultura não aprecia essas narrativas, para ele carregadas das “ideologias” que tanto combate, com o ardor de um templário exterminando sarracenos hereges.

Se chegasse a escrever alguma coisa, adotando o seu estilo, os seus humores cinzentos, e hálito sulfuroso, Velez poderia parodiar o conterrâneo que detesta, intitulando a sua obra: O Desamor Nos Tempos de Cólera.

Seria um manual para melhor compreensão das suas metas, e do recôndito sombrio da própria alma.

Velez Rodriguez é um discípulo muitíssimo bem comportado do “filósofo-doutrinador”, Olavo de Carvalho, de cujo esnobe e erudito  cachimbo saem as esfumaçadas  doses de instigação ao ódio contra o que, para eles, é uma parte peçonhenta da sociedade brasileira.

Sobre o fumarento filósofo Olavo de Carvalho, o general Mourão, vice-presidente da República, já disse que não tem tempo para se preocupar com ele.

Assim, investido com a armadura de todas as intolerâncias e conceitos mesquinhos, o Ministro da Educação e Cultura se transforma, também, em censor dos nossos “dissolutos costumes”.

Dos nossos defeitos, poderemos cuidar nós mesmos, sem a necessidade de um colombiano estranho aqui e depreciado em seu próprio país vir remexer nas nossas feridas, e genericamente a nos classificar de ladrões, além de apontar o dedo arcaico para respeitadas personalidades brasileiras, como o nosso lúcido  sereno e bem humorado Ancelmo Gois.

Milton, em seu Paraíso Perdido escreveu:

¨The mind in its own place, and in it self

Can make a Heav’n of Hell, a hell of heav’n.

Ou seja: a mente (a humana) pode fazer no seu lugar e por ela mesma, do inferno um céu ou do céu um inferno.

O nosso ministro da educação preocupa-se exclusivamente em “fazer infernos”.

“Fazer inferno”,  é a expressão que o povo utiliza para classificar quem produz intrigas, desavenças, maldades, sofrimentos e desnecessários conflitos.

Pena, pelo Ministério da Educação que o colombiano agora ocupa, já passaram tantos brasileiros do melhor quilate intelectual e humano, gente que entendia a educação e a cultura como instrumentos civilizatórios essenciais, e buscavam abrir fronteiras de entendimento e compreensão entre nós, e na nossa relação com o mundo.

A dupla Velez Rodrigues na Educação e Ernesto Araújo nas relações exteriores, causa obstáculos ao andamento normal do governo Bolsonaro, e prejudica o país.

Ernesto Araújo o diplomata belicoso, poderia aprender muito com um seu antigo colega, o culto e ilustre Embaixador Meira Penna. Num artigo sobre as ações do Itamaraty, Meira Penna disse que a diplomacia começou quando, entre selvagens que se combatiam, um emissário que propunha uma trégua foi bem recebido, e tratado com deferência. Dai em diante esses emissários da paz, os primeiros diplomatas, eram consideradas pessoas sacrossantas.

A depender da “diplomacia” de Ernesto, se por aqui aparecer um emissário do enlouquecido e agora moribundo Maduro, pedindo que o Brasil negocie uma saída para a crise, ele será expulso, ou mesmo massacrado.

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