Luiz Eduardo Costa | Jornalista
Se depender da Iguá e do governador, ninguém vai saber porque as torneiras ficaram secas
Entre o governador Mitidieri e a concessionária da nossa água, a Iguá, existe uma dose de cumplicidade que lhes impede de revelar o bem guardado segredo, que não poderá de maneira alguma vazar antes da eleição.
Ainda que vaze muita água perdida sem chegar às torneiras secas.
O segredo é o caos inevitável no abastecimento de água em Aracaju, nas cidades em torno, no polo de fertilizantes de Laranjeiras e Rosário do Catete.
Como é sabido, a adutora que transporta água para essa região mais populosa e coração da economia sergipana, foi concluída no começo dos anos oitenta do século passado. Tem assim mais de quarenta anos.
A obra de construção daquela adutora gigante, que deve ser ainda a mais extensa do país a transportar água de um ponto distante para uma capital, resultou da clarividência de um governador, Augusto Franco, e da sua capacidade de articulação com a PETROBRAS, e do entusiasmo que logo cedo revelou pelo projeto o presidente João Figueiredo, encerrando com o seu mandato um tempo alongado de ditadura, que, apesar dos absurdos cometidos, não perdera de vista o interesse maior do país.
A adutora era estratégica , porque também viabilizaria o Projeto Potássio, único no Brasil, e o polo de fertilizantes que começava com a também estatal NITROFERTIL. Atenderia também às operações da PETROBRAS em toda região da Cotinguiba e Aracaju.
Firmava-se a parceria Estado de Sergipe, e a estatal petroleira, que tinha maior capacidade operacional, antes das castrações sofridas no desatinado projeto anarco-privatista de Paulo Guedes, e o seu chefe Bolsonaro, indiferente ou ignorante sobre a importância indispensável, em alguns setores , da presença do Estado.
Do Rio de Janeiro veio um experiente engenheiro Daniel Monteiro, para comandar a obra. Para trazer a carga gigante dos primeiros tubos, foi usado um grande navio cargueiro de fundo chato, dotado de hélices laterais, para poder, no pico de uma maré de lua cheia, fazer a passagem pelo canal raso e repleto de voltas, na barra do rio Sergipe.
Para pilotar o barco nessa operação complexa, foi convocado , na aposentadoria onde estava o comandante de longo curso Alan Kardec Costa Lima. Ele é “ meio sergipano” e isso o entusiasmou mais ainda a enfrentar o desafio.
Chegaram os tubos, depois, viriam outros, até completarem os quilômetros da obra concluída em menos de três anos. (Essa historia da instalação do polo mineral-petroquímico em Sergipe, tem lances épicos da engenharia brasileira, e de vontade política, de políticos que a tinham de sobra).
Enquanto isso não acontece, estamos a viver esses dias de desconexão do atual governo com a realidade, que poderão ser objeto no futuro, de uma história vergonhosamente desprimorosa.
Mas, tratemos da Iguá, e do governo que a ela entregou a nossa água, aliás por um surpreendente preço.
O caos, como dizíamos, é inevitável. É sabido, tanto pela Iguá como pelas autoridades estaduais, mas fazem disso um segredo fechado a sete chaves.
Todavia a coisa é tão evidente, tão escancarada, que não é possível ocultá-la.
Há poucos dias houve um colapso no abastecimento de Aracaju. Não foi revelada pela Iguá, que tem ainda ,e por contrato, a DESO vendida ao seu lado, a verdadeira dimensão do problema. Fizeram um remendo, e a água retornou.
O que na verdade acontece: A adutora necessita de manutenção, e recuperação urgente, mais de trinta quilômetros da linha de tubos, estão literalmente esfarelando.
Nem ao governo, muito menos à Iguá interessa fazer o que é necessário. Assim improvisam. Reduziram o volume da água bombeada, para exercer menos pressão sobre os tubos em petição de miséria, e entre uma ruptura e outra, vão “ tapando o buraco”, até quando esses arranjos darão resultado, não é possível prever.
Este governo de Mitidieri não tem nenhum traço de previsibilidade, de planejamento para a segurança da população, e isso se tornou bem claro pela forma como foi privatizada a DESO. O governador falou na coragem que teve, recebeu a bolada, cujo destino não se sabe ao certo qual foi. Poderia, se responsabilidade houvesse, ter havido um arranjo com a Iguá, prevendo a aplicação desses recursos na manutenção da adutora.
Mas, de festa em festa o essencial foi esquecido.
Qual o quadro real da tragédia ou caos que se desenha para um futuro próximo, caso o atual governo não comece agora, independente do resultado da eleição desse domingo, a cuidar com seriedade da água para o povo?
Se houver algum vestígio de responsabilidade é preciso, com transparência, revelar toda a dimensão do drama, antes que o caos venha a ocorrer, afetando diretamente as pessoas, e mais o risco de paralisar a nossa economia .
A sociedade não pode ficar refém de um segredo decretado por conveniência eleitoreira.
Vamos ficar sem água, e o governo em clima de oba -oba, anuncia a construção de uma ponte gigante ao lado de outra que já existe, e atende aos objetivos que justificaram a obra fundamental de João Alves.
Pode ser feito um interessante exercício com os números, levando em conta a correção monetária, e a relação custo beneficio de cada obra. A de João Alves ficou em torno de 80 milhões de reais, tem pouco mais de 20 anos de construída. A atual está prevista girando em torno de 800 milhões. Não será concluída sem o acréscimo de pelo menos mais 500 milhões.
O que é mais urgente, a ponte idealizada por vaidade ,ou o conserto da adutora ditado pela responsabilidade pública ?
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