Luiz Eduardo Costa | Jornalista
TAMANHO NÃO É DOCUMENTO
Sergipe é, como se sabe, o menor estado da Federação. Tem, para os padrões brasileiros, ínfimos 21 mil e 900 quilômetros quadrados. A população também é reduzida: 2 milhões e 330 mil habitantes.
Em termos de presença política, em Brasília, nossa situação é de tal fragilidade que nos faz um estado quase esquecido. Além da pequenez numérica, temos o acanhamento de uma representação federal de oito deputados, e deles, no máximo três escapariam de um julgamento medíocre. No Senado, a situação é menos constrangedora por causa dos dois senadores, felizmente agora reeleitos.
Já em Alagoas...
Assim, o governador Mitidieri tomou a decisão certa ao apoiar e receber apoio de Lula. Em termos eleitorais, rendeu bem para os dois lados. Lula venceu com 438 mil votos sobre o outro, e Mitidieri foi além sobre Valmir, com uma diferença de 267.383 votos. Liquidou no primeiro turno.
Agora, estamos diante de um segundo turno extremamente difícil, e o governador sabe que seu desempenho no segundo mandato dependerá de uma ligação umbilical que ele terá se Lula for reeleito.
Por isso, tomou à frente da campanha e reuniu seus apoiadores para que se faça um esforço, diríamos hercúleo, e Lula, desta vez, chegue perto dos 600 mil votos de diferença.
No PT, suas principais lideranças, Rogério e João Daniel, já, dia seis, começavam a busca do eleitor quase de casa em casa, incentivando o militante e convencendo o indeciso a ir colocar o 13 na urna.
Do lado do governador, há muita gente bolsonarista ou que simplesmente não gosta do PT. É normal, não existem unanimidades em política. Mas, se não vingar o argumento de que só Lula poderá enxergar Sergipe, que seja posto aquele outro: a necessidade de salvarem o próprio grupo político que integram. Não se trata de lealdade a Mitidieri, mas de manterem vivas as próprias conveniências diante de um quadro político que permite, sem paixões, enxergar exatamente Sergipe e o governo reeleito, caso vença ou perca Lula.
Um caso específico, menor certamente, todavia ilustrativo:
O deputado Jeferson Andrade é hoje vice-governador eleito de Sergipe. São conhecidas as suas ambições de tornar-se governador e concorrer à reeleição, quando Mitidieri afastar-se para disputar o Senado em 2030.
Ah! Dirão alguns: isso está distante, daqui até lá correrá muita água por baixo da ponte.
Tudo bem, mas política se constrói, basicamente, com o preenchimento de cada etapa do tempo.
Voltando a Jeferson. Ele talvez nem saiba que, em Canindé, seus primos, ou só aquele que deu a si mesmo o título de líder, andam formando um grupo junto a bolsonaristas, votando contra Lula, em troca do voto que teriam quando, mais uma vez, candidatar-se a prefeito.
Enquanto isso acontece, o prefeito Machadinho está se “esgulepando”, visitando eleitores de povoado em povoado, “indigestado”, já a esta altura, de tanto “comer galinha”.
Isso significa que, enquanto um tenta somar, multiplicar, o outro lado, também do governo, usa duas operações contrárias: a de dividir e a de diminuir.
O governador poderia mostrar aos desobedientes o exemplo do seu secretário Jorge Araújo, pai, que não morre de amores por Lula nem pelo PT, mas, como calejado e experiente político, enxerga a realidade e vê a necessidade de uma união completa, sem vai e não vai. E ele dá o próprio exemplo, trabalhando intensamente.
Mas é preciso ir além das miudezas ou mesquinharias e ter a visão e o protagonismo para lidar com o futuro.
Flávio, se eleito, fará por Sergipe o mesmo que o pai: nada. Pior, poderá acabar o que já estamos conquistando.
A PETROBRAS, como Lula prometeu a Rogério e ao governador reeleito, está, de fato, retornando a Sergipe.
Retornando por quê? Exatamente por ter sido daqui afastada por Jair Messias Bolsonaro.
Flávio quer completar o desmonte e entregar a Donald Trump, de bandeja, as nossas imensas jazidas de óleo e gás em águas profundas.
Acreditando que Lula vencerá, o senador Rogério já levou ao governador Mitidieri um projeto de aproveitamento local do óleo e gás, que inclui uma estratégica refinaria de óleo diesel para veículos e também navios, que é um combustível raro. Produzido em Sergipe, seriam abastecidos navios nas rotas sul e norte do Atlântico (já temos o terminal), e isso significaria redução considerável de custos.
Mas o governador, ao invés de pedir a Lula recursos para construir a segunda ponte da Atalaia, poderia, em apelo quase emergencial, trocar de destinatário e direcionar verba, que não será pequena, para a quase reconstrução da adutora Propriá-Aracaju. Se isso não for feito, poderá haver um colapso, e adeus projetos de industrialização. Esqueçam a Iguá, enquanto isso.
Luxemburgo é um Grão-Ducado, quase invisível do alto para quem viaja entre a Alemanha e a França. Mas tem a terceira maior renda per capita do mundo.
O que ele fez? Industrializou-se, usou intensamente o carvão que tinha, e mais o dos seus vizinhos, muito barato, e entrou na revolução industrial fumacenta, também com uma política de incentivos irresistível.
Luxemburgo tem apenas 2 mil 586 quilômetros quadrados. Caberiam quase oito Luxemburgo em Sergipe.
Mas Sergipe é quase um milagre da natureza. Aqui, tem de tudo, e não só óleo e gás. Há jazidas imensas de sais minerais e até minérios considerados raros.
Se colocarem em frente do mapa e disserem a Flávio: “Mostre em 30 segundos onde está Sergipe”, ele não passaria no teste.
Temos, além do setor mineral, aquela coisa formidável que se formou exatamente no semiárido: a economia do leite. E, no agreste, a produção do milho, com produtividade alcançada entre as maiores do Brasil.
Um outro “milagre” está em formação. O MST, que metia medo ao dono de terra, se transforma em agronegócio, produz, nem pensa em invadir e domina a agricultura familiar. Com verba do deputado João Daniel, está sendo concluído em Poço Redondo um Centro Cultural, que é também mercado de produtos artesanais. Um modelo a ser reeditado em todos os locais onde exista densidade de assentamentos.
A hora de Sergipe é exatamente esta. Quem tem imobiliária e quer vender imóvel; quem tem concessionária e quer vender carro; quem tem hotel, bar, restaurante e quer ver sua casa cheia; quem tem construtora e faz casa, apartamento, vai votar em Flávio, por raivinha de Lula, e jogar fora a oportunidade de ganhar dinheiro?
Lula, que fez a PETROBRAS chegar a ser uma das cinco maiores petroleiras do mundo, que exporta hoje dois milhões de barris por dia, tem tudo na cabeça, tem o projeto para Sergipe, para a margem equatorial, que já começou e pinta ser um dos maiores do mundo.
Tudo isso pode ser desmanchado com uma penada de Flávio, que não tem amor ao Brasil, que odeia o Nordeste e só tem na cabeça, rodando, o seu interesse e o da sua família cada vez mais poderosa. E vai privatizar a PETROBRAS. Já ensaia um regime autoritário que terá reflexos perversos na vida institucional e econômica do país. Ele já disse que, se eleito, o pai que está preso vai subir a rampa com ele. Se necessário, usará a força. É num clima desses que os empresários poderão ter tranquilidade para o trabalho?
Nesta encruzilhada em que se encontra Sergipe (Mitidieri sabe disso melhor do que ninguém), o voto em Lula é até uma questão de sobrevivência.
Por tudo isso, ele deve convocar sua turma, pegar pela gola os recalcitrantes e exigir: “Me ajudem, votem em Lula e salvem Sergipe de sofrer o segundo e mais grave golpe depois da saída da Petrobras e do fechamento da FAFEM”.