Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa | Jornalista
SERGIPE TORNANDO-SE ESCÂNDALO NACIONAL
05/08/2026

 

SERGIPE TORNANDO-SE ESCÂNDALO NACIONAL

  (IA)

Como chefe competente, Mitidieri preparou um saboroso prato para uma eleição sem concorrentes.

 

Todos em Sergipe estão lembrados, e muitos ainda indignados com uma decisão judicial estranha, e com cheiro forte de mutreta. Foi o caso da inelegibilidade de Valmir Santos Costa, o Valmir de Francisquinho, que, em 2022, surgia como fenômeno eleitoral. Se viu impedido de concorrer, depois de ressuscitado um processo a que respondia desde quando fora Prefeito de Itabaiana, e dele já se considerava livre. A decisão judicial, estranhamente, para não dizer suspeitosamente, aconteceu três dias antes da eleição, propositalmente, para que não houvesse tempo de ser lançado um substituto. Sem alternativa, Valmir continuou com o seu nome nas urnas, e recebeu mais de meio milhão de votos, ficando em primeiro lugar e ir ao segundo turno disputar com o senador Rogério Carvalho. Isso não aconteceu, e assim, o candidato Mitidieri, que ficara num pífio terceiro lugar, subiu para o segundo, e permaneceu no páreo.

Com apoio forte de Belivaldo Chagas, que estava no governo, Mitidieri derrotou por apertada margem o senador Rogério, e tornou-se governador, “acidentalmente”.

Quando escândalos acontecem em Sergipe, eles não costumam ganhar dimensão nacional. Nosso tamanho é miúdo, e isso faz com que as mutretas, as nossas vergonhas, os nossos desatinos também se apequenem, e fiquem circunscritos a limites exíguos onde vivemos, morremos, lutamos, vencemos e perdemos, naquilo que às vezes parece uma vidinha provinciana, onde o que acontece de errado, até de vergonhosamente repugnante, adormece por aqui mesmo, ignorado pela grande mídia, e tudo se vai derretendo no esquecimento dos comentários das esquinas, sem maiores consequências.

Por isso, os que geram os escândalos na aldeia, se acham empoderados e livres para reincidirem.

Mitidieri, ao longo desses quase quatro anos, preparou o “prato saboroso” da sua reeleição, sem ter concorrentes capazes de ameaçá-lo.

Todas as pesquisas mostram que só Valmir, nome popular que gera empatias por onde passa, tem chances reais de vencer.

De última hora revive-se o surrado pretexto das irregularidades que teriam ocorrido no Matadouro Municipal quando Valmir era prefeito. Aquilo que habitualmente resulta em multas aplicadas pelo Tribunal de Contas, no caso, transformou-se em gravíssimo deslize, capaz de atazanar por toda a vida o maior líder político no cenário atual sergipano.

Em 2022, menos de quinze dias depois de tornar-se inelegível, e não concorrer no segundo turno que, com certeza, venceria, a justiça lhe devolveu os direitos, injustamente cassados.

Dois anos depois, na plenitude dos seus direitos políticos, Valmir candidatou-se a Prefeito de Itabaiana, venceu, como sempre, consagrado por enorme votação.

Exercendo um mandato, com todos os seus direitos restabelecidos, Valmir atendeu a um quase clamor popular que desejava vê-lo governando Sergipe. Renunciou ao mandato com a certeza de que não haveria mais nenhum empecilho legal que o impedisse de concorrer. Realizou-se a Convenção, seu nome foi homologado.

Como se este país fosse uma terra de onde ausentou-se a segurança jurídica, e onde direitos podem ser espezinhados, surge agora a ameaça. Através de mais um escândalo, tentam retirar de Valmir o direito de chegar às urnas.

Só nesta terra sergipana, onde os ruídos de escândalos ficam por aqui mesmo, o andar de cima poderia determinar: Valmir dos Santos Costa, aquele “tabaréu” de Itabaiana que ousa desafiar o sossego de um estamento social, como ostra apegado ao poder, tem o direito de ser Prefeito da terra dele, até pensar em ser Senador da República, mas, ao governo, nunca. O mundo avança, o Brasil avança, a duras penas vai mantendo a democracia, agora ameaçada por estrangeiros com seus agentes por aqui infiltrados, e Sergipe retroage, faz marcha a ré, ameaçado de tornar-se um feudo exclusivo de meia dúzia de donos.

O “prato saboroso”, merecedor dos cuidados “gastronômicos” de um chef que sabe dosar e distribuir os temperos, vai mexendo com as papilas gustativas de muita gente.

Para ter direito a um lugar à mesa, um nome em desuso e afundado no esquecimento de uma Secretaria da Cultura, que nem orçamento possui, o ex-deputado Valadares Filho, ex-candidato a vários cargos, e sempre derrotado em todas as tentativas, reaparece, torna-se a vedete no palco de um teatro de marionetes.

Valadarizinho resolveu ingressar na Justiça assinando uma denúncia contra Valmir, com o intuito de torná-lo inelegível. Os “argumentos” jurídicos chegam a ser ridículos, mas ele, o autor da façanha, movido por lamentável subserviência, não hesitou em causar um dano irreparável à sua biografia política.

Não quis imitar o seu pai, o honrado homem público, ex-governador e ex-senador Valadares, e viver com a paz, que uma consciência limpa e altiva proporciona.

Herança moral não se ganha por direito. Recebe-se por escolha.

Valadarizinho não tomaria essa atitude sem um entendimento prévio, sem uma combinação entre personagens interligadas. E tendo o sinal verde para avançar, qual um pet amestrado.

O que se pretende é causar insegurança jurídica e inviabilizar a candidatura de Valmir.

Caso repita-se o que houve em 2022, desta vez, o escândalo ultrapassará as fronteiras sergipanas, e será objeto de análise no Conselho Nacional de Justiça, onde já existem integrantes que se debruçaram sobre o ocorrido, e não ficarão acomodados se o mesmo vier a acontecer agora.

Avançando a estratégia fruto do desespero, da falência da ética e compostura, os togados que a permitirem correrão um sério risco: aos olhos críticos da sociedade serão vistos como cabos eleitorais a serviço de uma facção política, encantada com o “prato saboroso”, e pretendendo degustá-lo por mais quatro anos, indiferente se, ao seu redor, no chão raso da desonra, restarem reputações demolidas.

 

LEIA MAIS 

 

O GOVERNO MITIDIERI
COM BANANA E BOLO SE ENGANA AOS TOLOS?

Senador Alessandro não gostou, mas calou, quando a emenda dele para construção da adutora do leite tomou outros rumos.

 

Este ditado popular sobre a facilidade para enganar aos tolos está defasado, absolutamente fora de tempo. Mas existem os espertos que se definem como modernos e modernizadores. Assemelham-se à Carolina que dá o nome à música de Chico Buarque, sem verem “o tempo passar na janela”.

Carolina, a personagem de Chico, era ingênua, mais ainda sonhadora, e tinha “os olhos puros”. Essas características não cabem em políticos que nem são ingênuos, e muito menos dotados de olhos puros. Por isso, confiam firmemente nas artes, ou artimanhas das espertezas, que se tornariam eficazes através do uso e abuso do poder.

O governador Mitidieri teve exatamente três anos e sete meses para instalar um projeto que se chama Adutora do Leite. Ouviu falar dele quando candidato e querendo conhecer melhor o sertão. Isso aconteceu na varanda de uma casa em Canindé, cercada de árvores da caatinga preservada. Ficou surpreso e perguntou: “É para transportar leite?” E ouviu a resposta pacientemente explicativa: “Não, trata-se de uma Adutora, igual a todas que transportam água. No caso específico, é água sem tratamento, captada no São Francisco, na localidade de Curralinho, a jusante da Barragem de Xingó, onde o rio corre livre, direto para o mar e, por isso, sem maiores complicações para a outorga. A adutora levaria a água até o povoado de Santa Rosa do Ermírio, na área mais ressequida do semiárido sergipano, e onde existem quase quarenta mil vacas leiteiras.”

Se fez um silêncio, até que a explicação pausadamente foi concluída:

“Em Santa Rosa do Ermírio, deputado Mitidieri, se faz o milagre de alcançar recordes de produção, num rebanho de excepcional qualidade genética, mas onde a água que chega nos períodos mais longos de estiagem é transportada por caminhões-pipa. Uma vaca bebe mais de 60 litros de água por dia. Assim, na época das secas que se tornam cada vez mais frequentes, são necessárias centenas de cargas por dia.

A Adutora do Leite poderá ser um sistema de dupla utilidade, o que a tornaria plenamente viável: a dessedentação do rebanho e a irrigação. Ao longo do trajeto, iria enchendo pequenas barragens que irrigariam o plantio das forrageiras.

Para reduzir custos, o sistema de bombeamento poderia ser alimentado por energia solar, e sol é o que não falta neste sertão.”

O candidato então garantiu com firmeza: “Vou colocar este projeto no meu plano de governo. Irei construir a Adutora do Leite.”

Eleito, logo nos primeiros meses, recebeu a informação entusiasmante: o senador Alessandro Vieira destinou, para que fosse construída a Adutora, uma emenda de mais de setenta milhões de reais. A obra poderia ser iniciada no segundo semestre do primeiro ano de mandato e concluída no final do ano passado. Com ela pronta e acabada, o rebanho leiteiro de Santa Rosa do Ermírio poderia saltar de quarenta mil para oitenta mil vacas em menos de dez anos.

Mas o governador mudou de ideia e anunciou que construiria uma Adutora bem maior, chegando até Nossa Senhora da Glória, o polo central do nosso complexo industrial leiteiro, hoje o segundo maior do Nordeste.

Disse ainda o governador que, em combinação com o senador Alessandro, teria destinado para outros fins os recursos da emenda. Assim, trocou o certo pelo duvidoso.

Agora, nem uma coisa nem outra, e, no sertão decepcionado, ou desenganado, os seus habitantes se perguntam: Será que o governador Mitidieri só nos enxerga quando aqui vem fazer suas badaladas festanças?

Diante dessa pergunta coletiva que Mitidieri sabe que existe, ele preferiu não dar resposta e apressou-se a colocar em cena a esperteza.

Faz uns 15 dias surgiram em Canindé alguns tratores. Aplanaram uma extensa área do lado esquerdo da estrada para Paulo Afonso. Quem quiser exibir algo com visibilidade para o sertão não escolheria melhor lugar para fazê-lo. E logo foi construído um vistoso alambrado, pintado de azul. De algumas carretas desceram umas três dúzias de tubos de ferro, desses usados para construir adutoras.

Uma placa do governo do estado foi colocada em um ponto bem visível.

Na placa, anuncia-se que exatamente ali está começando a ser construída a Adutora do Leite, com data marcada, 2029, para ser inaugurada. Seria um prodígio de engenharia, uma proeza de rapidez e eficiência, rompendo todos os obstáculos da complexa burocracia e de exigências técnicas e ambientais, isso sem que exista sequer uma previsão de recursos a serem empregados na obra, com quase 200 quilômetros de extensão, acrescentando-se os ramais.

E o que é mais grave: a Adutora do Leite não é mais um projeto estadual; ele teria sido transferido para o Governo Federal, um apelo feito a Lula pelo governador Mitidieri, quando o presidente aqui esteve para selar uma acanhada aliança entre o PT e o PSD de Kassab. A obra nem consta na relação de projetos do PAC, o que teria de ser feito no próximo ano, e, caso Lula vença, como se espera, teria então de ser iniciada em 2028.

A primeira etapa para Santa Rosa do Ermírio, se o Governador Mitidieri olhasse com responsabilidade para a situação crítica dos produtores do Ouro Branco do sertão, já estaria concluída, usando-se os recursos da emenda do senador Alessandro. De certa forma, ele foi conivente. Sem tugir nem mugir, assistiu conformado aos recursos específicos da sua emenda para a construção da estratégica Adutora do Leite tomarem outro rumo, incerto e não sabido. Porque, nesse remexer de recursos, houve de tudo, menos transparência.

Hoje, as dezenas de milhares de trabalhadores e empresários envolvidos com a cadeia produtiva do leite, desde o curral aos modernos laticínios, passando pelos que plantam, colhem, produzem a silagem, pelos que fabricam e vendem as rações, enfim, pelos que vivem e dependem do multibilionário negócio do leite, o mais promissor de Sergipe, se sentem enganados, traídos pelo governador Mitidieri.

Acontece, porém, para desengano ou desespero dos enganadores, que hoje não mais existem nem  tolos, muito menos  bobos.

Voltar