Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa | Jornalista
UMA PONTE  DE VAIDADE PARA IMITAR UM GRANDE REALIZADOR
24/04/2026

UMA PONTE  DE VAIDADE PARA IMITAR UM GRANDE REALIZADOR

 

A segunda ponte sobre a foz alargada do rio Sergipe entre Aracaju e a Barra dos Coqueiros é um vistoso e custoso desperdício de dinheiro . Desnecessária e absurda.  Como se costuma dizer diante de teoremas matemáticos: “ tal como  iremos demonstrar”.

No seu segundo governo, João Alves, ao sonhar com um terceiro mandato que seria inédito em Sergipe, tinha, ao seu favor,  uma consistente e vistosa soma de realizações, quase impensáveis, diante da pobreza de Sergipe.  Citemos, aqui, somente os cinco grandes perímetros irrigados em Neópolis, Itabaiana, Canindé, Lagarto e Tobias Barreto. São obras fantásticas e com impacto  transformador no então acanhado panorama da economia rural sergipana.

Um outro grande  feito do cérebro inquietamente criativo de João Alves  foi a Orla da Atalaia.

Diante de tais prodígios, ele necessitaria de algo ainda mais impactante, todavia, quase impossível em face do desalentador vazio dos nossos cofres, e o desafio técnico a enfrentar.

Mesmo assim,  iniciou a ponte ligando Aracaju  a Barra dos Coqueiros, com prazo

para terminar: setembro de 2006, quando haveria a eleição onde ele teria de enfrentar o jovem prefeito de Aracaju Marcelo Deda, uma estrela já surgindo no cenário político brasileiro, onde  projetou-se pela fulgurante oratória, associada à  modernidade gerencial  que inaugurara na Prefeitura.  

João começou a  vistosa obra. Não encontrou apoio do presidente Lula, a quem fez cerrada oposição  querendo impedir a transposição do rio São Francisco.

Enfrentando problemas e oposição forte Lula fazia a transposição do Velho Chico. Da mesma forma, vencendo obstáculos, João fez a sua sonhada ponte. Escolheu o melhor local, para dentro do estuário, longe da foz. Conseguiu uma emenda do deputado federal Pedrinho Valadares, tocou a obra,  abandonou a conservação das estradas estaduais. Era fazer a ponte ou tapar buracos. João escolheu a ponte, e perdeu a eleição.

O governador Mitidieri entende que uma nova ponte se faz necessária. A primeira de João estaria sobrecarregada, incapaz de dar vazão ao tráfego intenso. Não é bem assim. Dizem, especialistas, que bastaria uma readequação  das cabeceiras, e o tráfego fluiria com facilidade ainda por muito tempo.   

A segunda ponte transformou-se na “ menina dos olhos” do governador Mitidieri. A obra não se dará por concluída antes de consumir algo próximo a um bilhão e duzentos milhões de reais. É muito dinheiro , mesmo para estado rico.

E não trará maiores vantagens do que a contemplação fascinada daquele, que dirá: “ fui eu quem construiu “.

No mundo da realidade, e colado ao interesse coletivo, há como garantir o futuro  do tráfego entre Aracaju e Barra dos Coqueiros, com segurança, e sem passar pela segunda ponte um transito pesado, inclusive de caminhões transportando inflamáveis em áreas densamente habitadas.

Na Barra, ao lado do porto, onde fica o mais disponível retroporto do nordeste, surgirá , mais cedo ou mais tarde, um complexo petroquímico. Lula virá a Sergipe para anunciar que o projeto Águas Profundas em Sergipe e Alagoas, já começa este ano. Será um ponto positivo para o senador Rogério Carvalho  que vem cochichando ao ouvido do presidente, já faz tempo, que a Petrobras precisa  retornar a Sergipe. Produzimos petróleo desde 1963, produzimos gás desde 1968, sempre ,mandando tudo para ser industrializado  e ganhar valor agregado em outros estados, onde existem refinarias.

O polo industrial na Barra dos Coqueiros seria a grande conquista a ser alcançada.

Então, o que precisamos, inclusive como fator favorável à  localização na Barra das indústrias petroquímicas, é acesso fácil à BR-101. Em vez de uma segunda ponte,  sairia muito mais barato fazer a duplicação da rodovia que vai da BR-101 até o porto , passando por Maruim, Santo Amaro e Pirambú. Por essa rodovia relativamente curta entrariam e sairiam as cargas embarcadas ou desembarcadas no porto.

Dessa forma , até a primeira ponte seria aliviada. Caso seja feita a segunda ponte, todo o embarque e desembarque no nosso porto, toda a produção das futuras indústrias, sendo transportada em pesados caminhões  cruzando a primeira ou a segunda ponte, iria atravancar ainda mais o nosso já complicado transito. Imaginemos dezenas, centenas de caminhões pesados, muitos transportando inflamáveis, indo e vindo pelas ruas estreitas de Aracaju, em direção à rodovia federal.

A solução óbvia, prática, mais barata,  será mesmo o acesso fácil e seguro à BR-101. Caso esta alternativa  lógica seja ignorada, os aracajuanos e moradores da Atalaia Nova, dos condomínios que crescem em todo o município da Barra, teriam sua tranquilidade  transformada  em infernal convivência com o perigo.

Ah! Poderão retrucar: poderemos fazer a ponte e também a duplicação da estrada até a BR -101, só para trafego pesado.

 Então para que a nova ponte? Ademais,   quem viesse do norte pela BR, indo para a Grande Aracaju, desde o cruzamento em Maruim, seguiria pela  nova estrada , chegaria, na Barra, ao acesso da primeira ponte e encurtaria o trajeto.

Dessa forma, bem mais simples e barata, sem a ostentação de uma ponte enorme e dispendiosa,  sobrariam recursos para duplicar a rodovia Lourival Baptista, ligando a BR-101 a Lagarto,   que tem importância estratégica,  tanto quanto a Rota do Sertão, da BR-235 a Canindé do São Francisco, passando por Ribeirópolis, Aparecida, Glória, Monte Alegre e Poço Redondo.

Em Piranhas, Alagoas, cresce exponencialmente o turismo, multiplicam-se os hotéis, o comércio; surge um importante polo de desenvolvimento na margem direita  alagoana,  que  também gera benefícios indiretos ao capengante lado direito sergipano do rio. Lá, em Piranhas, já chegou a beleza que é uma nova rodovia com quatro pistas, projetada e construída pelo governador Renan  Filho .

Agora mesmo, na Barra dos Coqueiros, começa a ser construída a segunda unidade de complexo de energia térmica. É a   expansão do maior investimento já realizado em Sergipe, ( 4 bilhões de reais, a primeira)  que foi o resultado de démarches complexas e bem sucedidas do ex-governador Marcelo Déda, que tinha como assessor para assuntos de energia, o economista Oliveira Junior.

 

O grupo que construiu a primeira usina, já em funcionamento há mais de dez anos, parte agora para um investimento de 5 bilhões de reais. Trata-se da expansão prevista do complexo de energia térmica, que utiliza o gás natural, com baixo nível de poluição.  Que, espera-se , irá consumir o gás já produzido em águas profundas em Sergipe.

 Para a primeira usina o gás vem dos Emirados Árabes, chega liquefeito, passa, ao chegar, para um enorme navio ou plataforma flutuante de regaseificação. Alimenta a usina e sobra para outros usos.

Com essa guerra enlouquecida do pernicioso maluco Donald Trump, o suprimento poderá faltar de uma hora para outra. Já está chegando mais caro.

Só um pequeno exemplo dos prejuízos globais causados por um desatinado extremista, homenageado no  Brasil pelo bolsonarismo. Flávio, que agora quer ser presidente, Tarcísio que administra o maior estado brasileiro, o Zema, também, exibiram-se orgulhosos com o boné de Trump, onde estava a frase acolhida pelos subservientes: “ América First”.

E eles são mesmo brasileiros ?

 

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O MODELO DE TRABALHO 5.2 E A REAÇÃO OBSCURANTISTA

 

Bertrand Russel,  nobre inglês, terceiro Conde da linhagem dos Russel, não cochilou  aquietado sobre o “ conforto”das tradições, e do sistema que fez a Inglaterra   senhora do mundo. Nascido em 1872, atravessou duas Grandes Guerras,  e nos meados do século passado mereceu o Prêmio Nobel, pelo ativismo  que o levou à linha de frente da luta pacifista, mormente quando se arrastava a guerra que ensanguentava o Vietnam.

Filósofo, matemático, historiador e “ cientista político “ como seria chamado hoje,  Russel cunhou a frase  título de um dos seus livros: O Ócio Criativo. Quase meio século depois, um escritor italiano que abominava o conservadorismo, Doménico de Massi, apropriou-se da frase, e  desenvolveu em torno do tema uma teoria modernizadora sobre a organização do trabalho, a dignidade do trabalhador, e o avanço das tecnologias, que cada vez mais dispensam a mão de obra , como a entendemos hoje. Poucos meses antes de falecer, Domenico  fez a sua última visita ao Brasil, país que ele enxergava com potencial para transformar-se na primeira grande potência nos trópicos

Visitou Lula , de quem era amigo e admirador,  e deve ter trocado ideias com ele sobre o  ócio criativo, que não é, como alguns desinformados pensam uma metáfora da preguiça.

Exigir trabalho como necessidade para aumento da produtividade, sem dar espaço para a qualidade de vida do trabalhador, é  confundir capitalismo com escravatura.

A escala 5  por 2 já é adotada em vários países,  será implantada no Brasil, porque no Congresso,

 por mais  retrógrados que sejam , os parlamentares que se definem como conservadores, não iriam derrubar o projeto do governo  que tem  aceitação popular. E estamos em tempo de eleições. Mesmo com o bolsonarismo  retrógado e inimigo do progresso social , e sem saber ou sentir o que é povo, o projeto será aprovado.

Haverá um tempo para a adaptação, e a desconstrução do discurso reacionário de que somos pobres porque não produzimos, e não produzimos  porque pouco trabalhamos.

Por outro lado, a produtividade não se mede somente pelo esforço do trabalhador,  e este nunca será tão produtivo como se espera ,  enquanto, para ele, o trabalho se transformar numa tortura.

O empresário precisa entender que o trabalhador que irá ter folga agora também aos sábados, será o  consumidor que estará tomando um chopp nos shoppings.

O reacionarismo brasileiro que não é pequeno, muito menos desprezível como agente do obscurantismo, enxerga a escala 5 por dois como uma ameaça ao crescimento econômico.

Temos uma prova da vantagem dos  5 dias trabalhados por 2 de folga, no setor da construção civil.

A produtividade aumentou nos canteiros de obras, desde que o trabalhador passou a descansar também aos sábados, voltando na segunda, sem estresse.

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